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sexta-feira, 6 de junho de 2014

Acesso à área de lazer do Hotel Portobello




No mês passado, cheguei a telefonar para o Hotel Portobello afim de saber sobre como funciona a visitação ao safári que funciona dentro do estabelecimento. E, segundo informaram as atendentes, o consumidor que não estiver hospedado paga tanto uma salgada taxa de R$ 250,00 para entrar no resort (o chamado day use) quanto um outro ingresso de R$ 50,00 exclusivamente para fazer o passeio de Land Rover no local de 300.000 m² onde ficam os 500 animais das faunas brasileira, européia e africana. Repliquei perguntando se haveria algum abatimento para o morador de Mangaratiba e elas apenas me responderam que não.

Tendo lido recentemente na internet o brilhante artigo de um brasileiro que viveu nos Estados Unidos, o mesmo compartilhou brevemente que, quando era morador de Orlando, ele e sua família puderam usufruir do lazer na cidade pagando preços mais acessíveis do que as importâncias cobradas dos turistas:

"Se quisermos medir a seriedade de um governo, basta ver o tratamento que dispensa aos seus próprios filhos. Os parques de Orlando, por exemplo, oferecem aos moradores da Flórida um preço diferenciado daquele oferecido aos turistas. Enquanto morávamos lá, podíamos pagar bem menos que um turista para visitar a Disney ou qualquer outro parque." (extraído do artigo A camisa da seleção manchada de sangue, de Hermes C. Fernandes)

Embora a crítica do autor fosse dirigida às caras partidas de futebol da Copa, podemos aplicá-la também ao Portobello que, como bem sabemos, não se cuida apenas de um mero estabelecimento hoteleiro e sim de um enorme parque. Uma propriedade privada, mas que ocupa uma significativa extensão territorial de Mangaratiba sendo os seus serviços na área de lazer economicamente inacessíveis para a maioria da nossa população.

A meu ver, o Município poderia, através de uma lei genérica para resorts e parques temáticos, ou de convênio específico com o Portobello, buscar meios afim de garantir o acesso com desconto pela população de Mangaratiba à área de lazer do parque. Penso que, na baixa temporada, seria o momento adequado para que as famílias que resolvessem visitar o safári ficassem isentas do tal day use. Ou pagariam no máximo uns dez por cento do valor de R$ 250,00 com isenção para as crianças. Não digo necessariamente agora em que a seleção italiana e encontra-se hospedada lá, mas, sim, nos próximos períodos outonais e de inverno, quando as praias recebem bem menos turistas do que no verão.

Ainda que o Portobello seja um negócio particular, não podemos esquecer da função social da propriedade que é expressamente reconhecida pela nossa Constituição Federal. E, neste sentido, nada mais do que justo proporcionar ao povo da cidade essa incrível oportunidade de lazer.


OBS: Imagem acima extraída de http://www.cbpf.br/~cosmogra/Xescola/EscolaX.html

terça-feira, 27 de maio de 2014

Passeios eco-culturais na Ilha da Marambaia




Penso que os habitantes de uma cidade deveriam conhecer suficientemente o território do município onde vivem. Porém, verdade seja dita que, em nossa querida Mangaratiba, o turismo interno ainda não é possível de ser realizado com plenitude em toda a sua extensão para a maioria das pessoas moradoras daqui. Isto porque, além do acesso a algumas das ilhas custar relativamente caro por causa da viagem de barco, existem também restrições para o interessado conseguir entrar em determinados locais. Uma dessas áreas seria a Ilha da Marambaia.

Tendo sido um dos primeiros assentamentos dos índios tupiniquins trazidos da Bahia para Mangaratiba, por volta de 1620, sob a tutela dos padres jesuítas, a Marambaia possui séculos de história. Uma longa história que, aliás, poucos sabem assim como desconhecem a sua comunidade quilombola representada pela ARQIMAR (Associação da Comunidade dos Remanescentes de Quilombo da Ilha da Marambaia) e a exuberante natureza bem conservada contendo: praias, florestas, cachoeiras, restinga de mangues, além de um pico com 647 metros de altitude possível de ser alcançado por meio de uma trilha sem a necessidade de escalada.



Consta que o primeiro documento formal da posse da Ilha da Marambaia data de 1856, em nome do Comendador Breves. Durante o período da escravidão, a ilha era mantida por seu dono como local de "engorda" de escravos contrabandeados afim de serem depois vendidos para outras fazendas. Pouco antes de morrer, em 1889, Breves doou, verbalmente, toda ilha para os ex-escravos que ainda permaneciam nela. Porém, tal decisão não foi respeitada e, com a abertura do processo de inventário, as terras acabaram sendo transmitidas para sua viúva Dona Maria Isabel de Morais Breves. No ano seguinte, a ilha foi vendida à Companhia Promotora de Indústrias e Melhoramentos e, posteriormente, em 1896, por motivo de liquidação forçada da referida Cia, a propriedade restou transferida para o Banco da República do Brasil. Com a aquisição da Ilha da Marambaia pela União Federal, a região foi colocada à disposição da Marinha do Brasil que instalou ali a Escola de Aprendizes-Marinheiros, em 1908. E, na década de 1940, durante a era Vargas, a comunidade da ilha veio a ser beneficiada com um instituto de pesca. Segundo informações constantes no site da Marinha,

"(..) através do Decreto-Lei nº 5.760, uma parte da ilha da Marambaia foi cedida à Fundação Abrigo do Cristo Redentor, para a instalação da Escola de Pesca Darcy Vargas. Nessa época, ocorreu um fluxo migratório de trabalhadores e familiares oriundos do continente em busca de emprego e oportunidades, ocupando determinados pontos da ilha. Esta porção, de 8,5 km², fio incorporada ao patrimônio da citada fundação entre 1944 à 1971, quando, por força do Decreto 68.224, de 12 de fevereiro de 1971, foi reintegrada ao patrimônio da União, por meio de um novo Termo de Entrega para a Marinha do Brasil, bem como todo o acervo móvel, imóvel e contratos de trabalho da escola de pesca. Durante o período em que a Escola de Pesca permaneceu na Ilha, a Marinha contava com o Campo de Aviação da Armada, que ocupava o restante da Ilha. No mesmo ano, 1971, ocorreu a ativação do Campo da Ilha da Marambaia, no local onde ficava a extinta escola de pesca. Em 1981, foi criado o Centro de Adestramento da Ilha da Marambaia (CADIM), lá situado até os dias de hoje." (extraído de http://www.mar.mil.br/cgcfn/marambaia/index.htm)

Assim, por se tratar atualmente de uma área militar, não é permitido o acesso de pessoas à Marambaia sem autorização prévia da Marinha. Esta, duas vezes por dia, provê transporte marítimo gratuito para a população civil por meio de embarcações, bem como seus familiares e convidados nos mesmos horários de utilização dos militares. Mas, se um turista decide por sua própria conta ingressar na ilha, mesmo se valendo de um transporte próprio ou alugado, o desembarque lá não é permitido.



Embora não considere adequado que a Marambaia receba um turismo massificado e predatório como vem ocorrendo há tempos na Ilha Grande, entendo ser viável que, através de um convênio entre a Fundação Mário Peixoto (FMP) e a Marinha, sejam promovidos passeios guiados por lá. Falo de algo semelhante ao que entidade começou a fazer a partir de março de 2012 conduzindo visitantes num único evento às ruínas do Sítio Arqueológico do Sahy, ao antigo teatro e armazém de café, à Estrada do Atalho, à Estrada Imperial, ao Bebedouro, ao Mirante, à Cachoeira dos Escravos, à Serra do Piloto, ao Cruzeiro, à Ponte da Serra e ao Parque Arqueológico de São João Marcos já no município vizinho de Rio Claro, que é o destino final. Assim, sem também cobrar pelos serviços, a FMP formaria grupos quinzenais condicionados a uma inscrição prévia e limitados a um número máximo de pessoas em que o ponto de encontro seria no centro de informações turísticas de Itacuruçá. Ali a Capitania dos Portos conferiria a identidade dos nomes das pessoas listadas pela fundação antes de permitir a entrada na embarcação da Marinha que parte da sede do distrito pela manhã.

Acredito que, se agirem de tal maneira, a FMP e a Marinha não só estariam colaborando com o turismo sustentável na Ilha da Marambaia como também democratizando o acesso à cultura e aos espaços protegidos dentro do nosso município. Mais do que nunca se criaria uma oportunidade incrível para as pessoas de Mangaratiba conhecerem um lugar de notável interesse histórico, ambiental e paisagístico. Algo tão importante quanto o passeio no Sahy, nas ruínas do Saco, Serra do Piloto e em São João Marcos.



OBS: Fotos acima extraídas de um site da Marinha do Brasil sobre a Ilha da Marambaia cuja página principal é http://www.mar.mil.br/cgcfn/marambaia/index.htm